terça-feira, 6 de outubro de 2009

a imaterialidade da palavra contra a intensidade musical

ontem, durante uma conversa com um grande amigo-mestre (daqueles que ensinam sobre a vida, sem querer, por osmose), parei para pensar sobre a imaterialidade da palavra.
o difícil é falar sobre isso, usando as quadradas palavras que conheço.

a palavra - algo tão forte, base da nossa comunicação, verdade irrefutável e absoluta em nossa vida - é, de certa forma, desprovida de sentimento.
assim como uma tela virgem, a palavra não tem significado, até o momento em que for usada.
quando se escreve algo, quando se desabafa no papel, quando rimamos os sentimentos, nesse momento, e apenas nesse momento, a palavra é carregada de sentimentos e significados.
o fruidor de uma poesia, apesar de sentir despertar dentro de si grandes emoções ao recitar os versos de outro indivíduo, chega pouco perto de toda a intensidade atingida pelo poeta original, no clímax de sua inspiração.
pronto! me vejo num paradoxo.
a escrita não capta todas as nuances e entonações de voz, que faz o discurso ser orgânico e vivo. tão pouco o gestual e as expressões, tão importantes na transmissão de uma mensagem. as letras apenas estão ali, quadradas, vazias, sujeitas à interpretação subjetiva de cada um, ou seja, a mensagem original dificilmente é compartilhada.
por outro lado, quem nunca chorou ao ler uma simples carta, um pequeno livro ou uma bela letra de música?
no último exemplo, tomando emprestado dos sons o poder de tocar a alma, a força da mensagem pode ser potencializada.
a musica muitas vezes é maior que seu compositor.
uma musica pode ser interpretada de tantas formas, que é difícil acreditar que foi concebida por um único indivíduo humano. me parece que o bom "fazedor de musica", é uma espécie de pára-raio, através do qual o mundo e a arte se expressam livremente. como as notas de Schoenberg a beleza do mundo está vagando em nossas mentes numa nuvem caótica, e raramente a entendemos. cabe ao verdadeiro artista faze-la chover nessa terra tão fértil que é a mente humana.
como pode alguém compor de forma a ser entendido universalmente?
a musica não tem idioma ou gramática, não tem regra ou padrão, assim como toda manifestação artística textual. porém com o elemento sonoro encorpando e expandindo o campo sensorial de quem a ouve, a musicalidade faz as vezes de mediadora na comunicação artista/fruidor.

de fato, a música é a mais poderosa ferramenta de comunicação que somos capazes de utilizar. através dela conseguimos nos aproveitar de todo um universo de informações que estão dispersas no inconsciente coletivo, e nos fazemos entender em qualquer situação.
veja bem, não estou descobrindo nada.
o recurso musical sempre foi utilizado para esse fim. os cânticos religiosos, os gritos de guerra, as cantigas cheias de ensinamentos e tantas outras formas de comunicação musical, se mostram historicamente eficientes.
não subestimemos, pois bem, o poder da música.

terça-feira, 16 de junho de 2009

onde vamos parar?

não quero parecer mais um anti-web démodé, mas as vezes paro pra pensar sobre o efeito da grande rede, e de todas as suas ferramentas, sobre os viventes dessa "era 2.0". sim, a internet veio para revolucionar e facilitar muitas coisas, e não estou aqui para desmerecer sua função social/educacional, porém são perceptível algumas situações em que ela se torna nociva à nossa relação com o mundo e com nós mesmos. muito já foi dito sobre os absurdamente extremados casos de alienação causados pelos inúmeros novos meios de comunicação criados nas últimas décadas, que resultam em seres albinos, anêmicos e anti-sociais.
fique calmo, não vou chever no molhado. minha linha de pensamento é um pouco mais sutil e despretensiosa.
percebo, tanto em mim quanto nas pessoas com que convivo, o desenvolvimento de uma memória virtual e flutuante no lugar de nossa memória real. não me refiro aos zilhões de bites de informações e arquivos que armazenamos em nossos HDs, ou hospedamos internet a fora, mas á memória pessoal que precisamos para interagir com o mundo. a facilidade e rapidez com que podemos encontrar todo tipo de informação na internet, nos deixa mais propensos a desenvolver uma certa preguiça mental. por que pensar e forçar a memória se é mais fácil jogar no Google? google it!
quem nunca encurtou uma conversa pois é mais fácil mandar um link de uma página onde tem tudo o que queria dizer? quem nunca esbravejou por não ter, durante uma conversa, um Google de bolso (o que logo já não será mais problema)? até os trabalhos acadêmicos muitas vezes são reduzidos a meras cópias dissimuladas, o que reduz e muito a absorção de informações.
apesar de o Google ser o bibliotecário do século XXI, fonte incessante de inforamação e conhecimento, pode ser uma faca de dois gumes.
o que quero dizer é que, de certo modo, toda facilidade causa sedentariedade, digamos assim. no caso uma sedentariedade mental, que, se exagerada, considero nociva.
mas perceba que esta é uma discussão muito antiga, criada talvez, junto com a escrita. assim como não vivemos mais sem a escrita, logo a internet será mais um fator essencial para a comunicação. desde sempre, novas formas de se comunicar causam um certo medo do emburrecimente da humanidade, mas sempre é bom pensar sobre o efeito que têm sobre nossa forma de viver.
minha intenção não é criar e viver em um mundo retrógrado sem todas essas ferramentas, até porque sou usuário delas todas, e de certa forma são necessárias pra muitas coisas. mas penso que devemos usa-las como simples gadgets, e não como base. digo, a base de uma pessoa deve continuar sendo ela própria e sua capacidade dialética, e não seu capital social bem como suas redes sociais e a simples habilidade ou familiaridade com tais ferramentas de informação.
essa certa repetição de indagações retóricas nos faz aprender e, por consequente, seguir evoluindo junta às inovações tecnológicas de forma saudável.